O ensino de Filosofia na periferia da civilização: desafios para uma crítica contracolonial

Autores

  • Gustavo Henrique Fontes de Holanda IFS

Palavras-chave:

Ensino de Filosofia, Iluminismo, Contracolonialismo

Resumo

Neste trabalho iremos abordar alguns dos desafios pedagógicos e epistemológicos relacionados ao ensino de Filosofia em países que geograficamente se encontram na periferia daquilo que é considerado como centro da civilização mundial, ou seja, a Europa. O que estes países, por sua vez tão diversos entre si, têm em comum é a marca histórica da colonização europeia, constituída sobretudo a partir do ciclo das chamadas ‘grandes navegações’, que foram nos anos seguintes, os canais de disseminação do ideário da modernidade europeia para o resto do planeta. O primeiro grande desafio que se apresenta neste horizonte investigativo é o de buscar problematizar e discernir o legado específico e intrinsecamente filosófico dessa tradição, e o que nele é apenas reprodução epistêmica de uma correlação de forças coloniais que historicamente buscou privilegiar a auto-referencialidade europeia, propondo-a enquanto um valor filosófico em si. Alguns paradoxos surgem naturalmente desta seara investigativa, dentre os quais daremos particular atenção à relação entre o ideário iluminista de liberdade, dignidade e fraternidade humana, e as teorias filosóficas e pseudo-científicas que buscaram legitimar a eugenia, o racismo e a escravidão em países latino-americanos. Neste sentido, entendemos que a apropriação do discurso filosófico e da prática do filosofar, por parte de professores e alunos, tanto da educação básica quanto do ensino superior, se não for precedida por uma leitura decolonial e/ou contracolonial desta tradição, tende a reproduzir uma ideologia implícita e amplamente arraigada no discurso filosófico, conhecida como ‘eurocentrismo’. Entendemos, por fim, que o ensino de Filosofia em países como o Brasil, tem esse desafio adicional de não apenas se apropriar do rico legado da história da Filosofia Ocidental, mas tem também como tarefa adicional realizar a crítica decolonial ou contra-colonial deste mesmo legado, de forma a posicionar os sujeitos no centro de suas próprias articulações e indagações filosóficas, em convergência com seus contextos históricos e regionais.

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Publicado

2025-04-04

Edição

Seção

Artigos Transdisciplinares (Fluxo Contínuo)